Street Fighter com Van Damme: drogas, censura e decisões bizarras por trás do filme de 1994

 

Durante a Game Awards 2025 foi confirmado o primeiro teaser de um novo filme de Steet Figther que estreará em 2026, com um elenco marcado por rostos conhecidos, como Jason Momoa como Blanka e 50 Cent como Balrog. Aproveitando o ensejo, esse é um bom timing para relembrar o primeiro longa-metragem da lendária franquia de jogos de luta da Capcom, lançado em 1994 com nada mais, nada menos, que Jean Claude  Van Damme no papel principal. 

Mais problemas do que é possível lembrar

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A gênese de Street Figther – A Última Batalha já nasce em modo emergência. O diretor/roteirista Steven E. DeSouza conta que recebeu uma ligação dizendo que, no dia seguinte, haveria uma reunião com a Capcom em Osaka, e que ele passou a noite em claro montando essa apresentação: se convencesse os japoneses a cancelar todas as outras reuniões e fechar com ele na hora, ganharia também o direito de dirigir, mesmo sendo estreante na direção de cinema. A proposta, que a Capcom comprou, não era “vamos filmar o torneio”, mas transformar Street Fighter em um filme de vilão à la 007, com M. Bison no centro da trama, base secreta, exército particular e um clima de G.I. Joe em live-action.

A publisher chegou à mesa com um pacote completo: blueprint gigante da base subterrânea de Bison sob um templo, materiais visuais e até documentos sobre uma futura linha de brinquedos com pegada militar, que DeSouza usou como ponto de partida. Um excelente argumento para apresentar um filme a uma grande apresenta, a ideia de que aquilo também poderia ser uma mina de ouro para o licenciamento de produtos.

Dos sete personagens ao elenco entupido por pressão de marketing

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DeSouza entrou na sala defendendo uma regra simples: dava para trabalhar direito com sete personagens, evocando até a metáfora dos “sete anões” ou “sete maravilhas” como limite do que o público lembra e se importa.

 

A Capcom aceitou no começo, mas, conforme o projeto avançava, foi pedindo para incluir mais e mais lutadores, inclusive um personagem recém-adicionado ao jogo, empurrado para dentro do roteiro quando já estavam no último mês de filmagem. O resultado é um filme de cerca de 100 minutos com uns 15 rostos importantes, tempo de tela mínimo para cada um e quase nenhuma luta que realmente fique na memória.

A publisher também interferiu pesado no casting, especialmente nos personagens asiáticos. DeSouza relata que os executivos vetavam sistematicamente atores asiático-americanos porque, na cabeça deles, só japoneses poderiam interpretar japoneses.

A solução foi apagar os sobrenomes nas fichas de teste e mandar para a Capcom apenas os primeiros nomes, como se todos fossem “artistas de um nome só”; de repente, os mesmos atores passaram a ser aprovados, e quando descobriram que alguns eram de origem chinesa ou coreana, um executivo ainda soltou que certo ator era “bonito o suficiente para passar por japonês”. É o tipo de história que mostra choque cultural real, não só “elenco estranho” por incompetência.

 

Van Damme: salário gigante, cocaína e uma “babá” que virou parceiro de noitada

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A Capcom queria um filme leve, daqueles liberados para maiores de 13 anos (o famoso PG-13 nos EUA), mas Van Damme, no auge da fama, carregava a imagem de ação pesada, com cenas que pediam classificação proibida para menores (R-rated). Mesmo assim, os japoneses bancaram: gastaram perto de um quarto do orçamento só no salário dele, tudo para ter o nome do astro brilhando no cartaz.

DeSouza, que já tinha trabalhado com Arnold Schwarzenegger, costumava sentar antes com o ator para ensaiar falas e ajustar a pronúncia do inglês. Fez o mesmo convite a Van Damme (que nasceu na Bélgica) que recusou. Ele disse que treinaria em casa com a esposa. No set, porém, ele travava em frases simples, como “See you later”.

Mas tinha um problema ainda maior: o vício em cocaína, que o próprio Van Damme confirmou anos depois. Em entrevistas, ele admitiu consumir até 10 gramas por dia no pico, gastando 10 mil dólares por semana entre Tailândia e Hong Kong, relatos que batem com DeSouza, que o descrevia chegando chapado e sumindo por dias inteiros.

O estúdio contratou uma “babá de ator” para vigiá-lo (exigência do seguro ), mas os dois viraram dupla de farra, com o responsável mais incentivando do que controlando. Resultado: manhãs com JCVD “doente” no hotel, e o diretor revirando o roteiro atrás de qualquer cena que desse pra rodar sem o protagonista, só pra não paralisar a equipe. Houve duas vezes em que ele foi liberado pra Hong Kong e simplesmente não voltou na segunda, forçando refilmagens de última hora.

Sem Van Damme, DeSouza inventava cenas de última hora para outros atores; sem ensaio, nada de lutas, só diálogos fracos que muitas vezes iam pro lixo.

As distrações continuaram além das drogas. Casado pela quarta vez e com filho a caminho, ele começou um caso com Kylie Minogue (Cammy) depois de levá-la pra conhecer Bangkok.

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As distrações continuaram além das drogas. Casado pela quarta vez (com Darcy LaPier, grávida do filho do casal), ele começou um caso com Kylie Minogue (Cammy) depois de levá-la pra conhecer Bangkok. Anos depois, em 2012, Van Damme confirmou em entrevista ao Guardian:

“Sim. Tá bom. Sim, sim, sim. Aconteceu. Eu estava na Tailândia, a gente teve um caso. Beijo doce, amor lindo. Ela é tão linda, simpática, charmosa.”

Kylie, por sua vez, minimizou o episódio, chamando “affair” de exagero. Ela admitiu flerte ou atração, mas negou intensidade, descrevendo Van Damme como “intimidante” no set e focando no arrependimento pelo filme, não pela história pessoal.

Raul Julia: um vilão maior que o filme

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No outro extremo estava Raul Julia, que aceitou o papel de Bison em parte porque os filhos eram fãs do jogo, mas chegou ao set em estado frágil depois de cirurgia relacionada ao câncer que o mataria meses depois.

DeSouza conta que a ideia inicial era filmar primeiro as cenas mais leves com o ator, enquanto o resto do elenco treinava artes marciais, mas, ao vê-lo extremamente magro, decidiu inverter tudo: adiou as cenas de Bison, reorganizou o cronograma e colocou Julia em uma espécie de “projeto de recuperação” com shakes hipercalóricos e treino com o lendário Benny “The Jet” Urquidez até que ele retomasse peso.

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Apenas uma cena, a apresentação de Dhalsim, teria sido rodada ainda com Julia num estado mais abatido; o restante já mostra um Bison fisicamente mais imponente, resultado dessa engenharia de cronograma. O ator levou o papel com a seriedade de um vilão de teatro shakespeareano em um filme que, em volta, parecia cada vez mais um circo desorganizado, e acabou entregando a performance mais lembrada da produção. Quando Street Fighter estreou, Raul Julia já estava morto, o que reforça a percepção de que o filme carrega, no meio do caos, um último grande trabalho de um ator de outro calibre.

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Tailândia, estrutura precária e um set amarrado na marra

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No papel, o plano logístico parecia eficiente: seis semanas de filmagem na Tailândia, onde tudo era barato, seguidas de quatro semanas em estúdio na Austrália. Na prática, virou outro pesadelo. DeSouza conta que os estúdios tailandeses eram galpões de telhado de zinco em plena temporada de chuva, e construções tão precárias que a equipe tinha que lidar com feixes de luz atravessando o que deveria ser uma noite artificial.

Em duas semanas no país, a produção acumulou cerca de nove dias de atraso, forçando o diretor a redesenhar o cronograma inteiro, antecipar cenas na Austrália e cortar páginas de roteiro simplesmente para caber no tempo restante. Para piorar, problemas trabalhistas com dublês na Austrália limitaram o treinamento de luta. Muitos atores só recebiam coreografia horas antes de rodar a cena, o que ajuda a explicar por que um filme sobre um dos games de luta mais técnicos do mundo tem combates tão contestáveis.

A guerra com a classificação indicativa e os cortes que “mataram” a alma do filme

A Capcom queria um filme PG-13, e DeSouza diz que filmou exatamente com essa régua, usando a experiência em TV para manter a violência num nível “Knight Rider”: muita ação, pouco sangue explícito. O corte inicial, porém, voltou da MPAA — o órgão americano de classificação — com selo proibido para menores (R-rated), numa semana sensível por causa de um tiroteio em escola.

Em pânico, a equipe mutilou as melhores cenas de ação, incluindo um refilmagem cara em que Vega morre esmagado pela própria garra. Cortaram tanto que veio de volta com G, classificação de desenho infantil, morte comercial certa para um blockbuster de luta. Com o Natal na porta, DeSouza chamou Van Damme para dublar uma fala extra na cena dos dutos na base de Bison: “Four years of ROTC for this shit” (algo como “Quatro anos de treinamento militar pra essa merda”). O palavrão de quatro letras bastou para subir direto ao PG-13, sem mexer mais nada.

O filme estreou assim: mais manso que o planejado, comparado a PG-13 da época como Indiana Jones. A Universal nem liberou para críticos de forma antecipada, prevendo o pior.

Fracasso criativo, lucro financeiro

No agregado, o longa é um híbrido estranho: filme de guerra leve com pegada de desenho militar, lutas fracas para um título centrado em combate e humor que envelheceu mal. A crítica esmagou Street Fighter em 1994, e ele caiu rápido no rótulo de “uma das piores adaptações de game já feitas”, ao lado de Super Mario Bros., ajudando a cimentar a fama de que games e cinema não combinavam.

Nos EUA, o filme fez só 33 milhões de dólares, caindo rápido do top 10. Internacionalmente, porém, passou dos 100 milhões no total — o suficiente para Capcom declarar vitória financeira, apesar do caos.

Onde assistir Street Figther – A Ultima Batalha no streaming?

O filme está disponível na HBO Max.

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